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Na pequena Rua do Alecrim, onde as casas têm cores de sorvete e os jardins cheiram a jasmim, algo extraordinário estava prestes a acontecer. Tudo começou quando o pequeno Dudu, de apenas sete anos, percebeu que aquele ano não haveria a grande quermesse da praça central. Sentado no meio-fio, ele suspirou: 'O que é um junho sem o cheirinho de pipoca e o som da sanfona?'.
Sua melhor amiga, Bia, que passava com uma caixa de giz coloridos, parou na hora. 'E por que não fazemos a nossa própria festa, Dudu? Aqui mesmo, na nossa rua!'. A ideia brilhou nos olhos dos dois como as estrelas de uma noite de São João. Em poucos minutos, a notícia se espalhou como faísca em palha seca. Leo, que sabia tocar um pouquinho de triângulo, a pequena Marina, mestre em dobraduras de papel, e até o rabugento Seu Totó, que tinha o melhor quintal de milho da região, decidiram ajudar.
A primeira tarefa foi a decoração. Durante toda uma semana, a garagem da casa de Bia se transformou em uma verdadeira fábrica de cores. As crianças se reuniram em volta de grandes mesas, recortando papéis de seda. Vermelho, amarelo, azul e verde! Milhares de bandeirinhas foram coladas em barbantes longos que cruzariam a rua de um lado ao outro. Marina ensinou todos a fazerem balões de papel que, embora não subissem ao céu, brilhariam pendurados nas árvores com luzinhas de Natal reaproveitadas.

Mas uma Festa Junina de verdade precisa de uma fogueira. 'Não podemos acender fogo de verdade no asfalto', ponderou Leo, preocupado. Foi então que Dudu teve uma ideia genial: uma fogueira de papel! Eles usaram rolos de papelão de tapetes para fazer as lenhas, pintando-os de marrom com texturas de madeira. Para as chamas, usaram papel celofane laranja e dourado, que balançava com o vento, parecendo fogo de verdade. Ficou tão linda que até os passarinhos paravam para olhar.
Na véspera da festa, o aroma que saía das cozinhas da vizinhança era de enlouquecer. A mãe de Dudu preparou bacias gigantescas de pipoca branca e salgadinha. A avó de Bia passou a tarde mexendo o doce de amendoim para fazer a paçoca mais macia do mundo. Teve bolo de fubá fofinho, canjica com canela e milho cozido que Seu Totó doou com muito orgulho. Cada criança ficou responsável por levar um prato, transformando a calçada em um banquete real.
Finalmente, o grande dia chegou. O sol se pôs e a Rua do Alecrim estava irreconhecível. As bandeirinhas dançavam lá no alto, e as luzinhas piscavam entre as folhas das árvores. As crianças surgiram de suas casas vestidas a caráter: camisas xadrez, remendos coloridos nas calças, vestidos de chita com rendas e chapéus de palha. Dudu tinha pintado bigodes pretos com rolha queimada, e Bia exibia sardinhas charmosas nas bochechas.

'Atenção, pessoal! Formar a fila para a quadrilha!', gritou o pai de Leo, que assumiu o papel de marcador. O som do forró começou a ecoar pelas caixas de som improvisadas. 'Olha a chuva! É mentira!', ele gritava, e as crianças pulavam, riam e rodopiavam. O 'anarriê' e o 'alavantú' faziam todos se sentirem parte de uma história antiga e mágica. Até os adultos, que no começo só observavam, não resistiram e entraram na dança, formando o maior caracol que a rua já viu.
No centro de tudo, a fogueira de papel brilhava sob a luz da lua. Não queimava a pele, mas aquecia o coração. Entre uma dança e outra, as crianças se deliciavam com a paçoca e a pipoca, rindo com as bocas sujas de açúcar e canela. Não havia celulares, não havia tevê; havia apenas o som da sanfona, o estalar imaginário da madeira e a alegria de estarem juntos.
Quando a festa terminou e as luzes começaram a se apagar, Dudu e Bia sentaram-se novamente no meio-fio. A rua estava silenciosa, mas ainda vibrava com a energia da celebração. 'Foi a maior festa que o mundo já viu', sussurrou Bia. Dudu sorriu, guardando um pedaço de bandeirinha no bolso. Ele sabia que, enquanto houvesse amizade e um pouquinho de papel colorido, o espírito do São João nunca deixaria a Rua do Alecrim. E assim, sob o manto de uma noite estrelada, o bairro adormeceu feliz, sonhando com a quadrilha do ano que vem.
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Faz parte da série «A Festa Junina do Bairro»
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