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Leo apertava o cobertor até a altura dos olhos, sentindo o cheiro reconfortante de amaciante de lavanda que sua mãe usava em seus lençóis. No canto do quarto, perto do guarda-roupa de madeira que rangia baixinho com a mudança de temperatura, uma sombra comprida parecia dançar sob a luz pálida da lua que atravessava a fresta da cortina azul. Ele tinha certeza de que aquela era uma daquelas histórias de terror curtas que os primos mais velhos contavam no quintal, sobre criaturas misteriosas que viviam no silêncio da noite. O coração do pequeno batia ritmado como um tamborim, e ele jurava ouvir um suspiro suave, quase um assobio, vindo de algum lugar perto da poltrona. "Quem está aí?", ele perguntou com a voz bem fininha, enquanto o vento lá fora balançava os galhos da goiabeira, criando dedos de sombra que pareciam querer fazer cócegas nas paredes.
Para sua total surpresa, uma voz que soava como o barulhinho de folhas secas sendo pisadas respondeu prontamente: "Sou eu, o Pufi, mas não precisa acender a luz, por favor!". Leo, tomado por uma curiosidade que era bem maior que seu receio, sentou-se na cama e viu dois olhinhos brilhantes, cor de limão, espiando por trás da sua pilha de gibis. Pufi explicou, com um jeito muito educado, que não era um monstro assustador de garras afiadas, mas sim um Monstro-Poeira que adorava colecionar meias perdidas e o perfume de sonhos doces. "Eu morro de medo do brilho da lanterna, ela faz meu nariz fazer um 'atchim' gigante!", confessou a criatura, revelando-se um ser de pelos macios como algodão-doce e orelhas caídas que lembravam abas de um chapéu de feltro. Leo soltou uma risadinha baixa e gostosa, percebendo que o suposto terror era, na verdade, um novo amigo que precisava de companhia tanto quanto ele naquela noite silenciosa.
Os dois passaram os minutos seguintes conversando sobre as coisas mais importantes do mundo, como qual era o melhor sabor de picolé e por que as estrelas não caíam do céu quando todos iam dormir. Pufi mostrou a Leo que a sombra assustadora na parede não era um gigante de braços longos, mas apenas o seu casaco de dinossauro pendurado no cabide, que ganhava vida com a imaginação do menino. O monstrinho, com seus passinhos leves, até ajudou Leo a encontrar sua pantufa esquerda desaparecida, que estava escondida atrás do baú de brinquedos coberta por um pouquinho de pó estelar. "O escuro é como um cobertor quentinho que o mundo usa para descansar", explicou Pufi, enquanto fazia sombras de coelhinhos com as mãos peludas na parede iluminada pelo luar. O quarto, que antes parecia cheio de mistérios perigosos, agora era um refúgio mágico onde a amizade florescia sem precisar de nenhuma lâmpada acesa.
O sono finalmente começou a pesar nas pálpebras de Leo, e o bocejo do menino foi tão contagioso que o próprio Pufi abriu uma boca enorme e redonda, sem nenhum dente pontudo à vista. Leo se ajeitou entre os travesseiros fofos, sentindo-se completamente protegido e feliz por ter descoberto que o medo é apenas uma história que a gente esquece de transformar em brincadeira. O monstrinho se encolheu num cantinho macio do tapete, prometendo que estaria lá para vigiar os sonhos mais bonitos e espantar qualquer pensamento bobo que tentasse entrar pela janela. Com o som rítmico da chuva começando a cair lá fora e o tique-taque sereno do relógio, o menino fechou os olhos e mergulhou num sono profundo, sabendo que o escuro era apenas o palco para as melhores aventuras. Boa noite, pequeno Leo, e boa noite para o monstro que, no fim das contas, só queria um abraço de boa noite.
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