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Nas margens do imenso Rio Amazonas, onde as águas dançam conforme a música da floresta, vivia um menino chamado Kauê. Kauê era um garoto de olhos curiosos e pés ligeiros, mas tinha um segredo que guardava no fundo do peito: ele era tão tímido quanto um bicho-preguiça escondido entre as folhas. Quando chegava o mês de junho, a vila de Águas Claras se transformava. Bandeirinhas coloridas eram penduradas entre as palmeiras, o cheiro de milho assado e canjica tomava conta do ar, e o som da sanfona começava a ecoar pelas trilhas.
Kauê amava a Festa Junina. Ele adorava ver as fogueiras estalando e as roupas remendadas e coloridas dos vizinhos. No entanto, sempre que alguém o convidava para participar da 'quadrilha', a dança típica da festa, ele sentia o coração bater como o tambor de um mestre de boi-bumbá. Suas mãos suavam e suas pernas pareciam feitas de gelatina. Ele acabava sempre observando tudo de longe, escondido atrás de um grande tronco de sumaúma, desejando ter a coragem de celebrar com os outros.
Na noite da grande festa, a lua cheia subiu ao céu, iluminando o rio como se tivesse espalhado diamantes sobre a água. Kauê estava em seu lugar de costume, perto da beira do rio, ouvindo a música que vinha do centro da vila. De repente, ele ouviu um som suave vindo da água: 'Pluft!'. Um brilho rosado iluminou a margem. Das águas calmas, surgiu um golfinho cor-de-rosa, o famoso Boto da Amazônia. Kauê arregalou os olhos. Ele já tinha ouvido muitas histórias sobre o Boto, mas nunca tinha visto um tão de perto.
Diante dos olhos maravilhados do menino, o animal saltou para a terra e, em um piscar de olhos, transformou-se em um jovem elegante. Ele vestia um terno de linho branco impecável e um chapéu de palha charmoso que cobria o topo de sua cabeça. O jovem caminhou até Kauê com um sorriso que parecia conter toda a alegria do mundo.

— Boa noite, pequeno mestre — disse o homem, com uma voz que lembrava o som do vento nas folhas. — Por que está aqui sozinho, se a música lá adiante chama por todos?
— Eu... eu não sei dançar como eles — sussurrou Kauê, baixando a cabeça. — E se eu tropeçar? E se todos rirem de mim?
O Boto sentou-se ao lado de Kauê na areia morna. — Sabe, Kauê, o rio nunca para de correr porque tem medo das pedras. Ele simplesmente flui ao redor delas. A música não pede perfeição, ela pede apenas o seu coração. Eu venho das profundezas do rio todos os anos só para sentir o calor dessa alegria. A coragem não é a ausência de medo, mas a vontade de se divertir mais do que o medo permite.
O homem de branco tirou uma pequena pedra arredondada e rosada do bolso e entregou a Kauê. — Esta pedra foi polida pelas águas por muitos anos. Ela é firme e calma. Segure-a no bolso. Sempre que sentir vergonha, lembre-se de que você é como o rio: imparável e cheio de vida.

Encantado pelas palavras do visitante misterioso, Kauê sentiu um calorzinho diferente no peito. O Boto levantou-se e estendeu a mão. Juntos, eles caminharam em direção à luz da fogueira. Quando chegaram ao centro da festa, a quadrilha estava prestes a começar. O marcador gritava: 'Olha a chuva! É mentira!'.
O jovem de chapéu branco piscou para Kauê e desapareceu discretamente entre a multidão. Kauê respirou fundo, apertou a pedrinha rosa em seu bolso e deu o primeiro passo. Uma menina da sua escola, a pequena Tainá, estendeu a mão para ele. Em vez de fugir, Kauê sorriu e aceitou o convite. Ele dançou, girou e pulou. Ele percebeu que não importava se errava o passo; o que importava era o ritmo da amizade e o calor do fogo junino.
A noite passou como um sonho. Kauê nunca se sentira tão feliz. Ele comeu pipoca, brincou na pescaria e até ganhou um prêmio. Quando a festa começou a esfriar e as estrelas começaram a empalidecer com a chegada da aurora, Kauê voltou à margem do rio para agradecer ao seu novo amigo. O jovem de branco não estava mais lá, mas no meio do rio, um golfinho cor-de-rosa deu um salto majestoso, refletindo os primeiros raios de sol, antes de mergulhar e desaparecer nas profundezas.
Kauê guardou a pedrinha rosa em sua estante como um tesouro. Ele aprendeu que, com um pouco de magia e muita vontade, qualquer timidez pode se transformar em dança. E, desde aquele dia, nunca mais se viu um par de pés tão animados nas festas de Águas Claras quanto os de Kauê, o menino que aprendeu a fluir como o rio.
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Faz parte da série «O Boto Cor-de-Rosa e a Festa Junina»
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Episódio 2O Segredo das Cavernas Submersas3 páginas
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